Vice Hamilton Mourão: “Não vejo ameaça a nossa democracia”

O Governo do presidente Jair Bolsonaro segue a Constituição e não oferece risco à democracia, apesar de todos os sinais emitidos de uma ruptura por Bolsonaro e seus pares.

“Estamos em pleno funcionamento da democracia, todas as instituições funcionam de forma independente”, diz o vice-presidente Hamilton Mourão, general da reserva que hoje está à frente do Conselho da Amazônia, um colegiado que reúne ministérios para discutir ações de proteção à floresta.

Em uma conversa de 25 minutos por videoconferência, Mourão refutou qualquer ameaça de golpe ou autogolpe, e minimizou os ataques à democracia brasileira promovidos de dentro do Governo. Desde a intenção do presidente de armar a população —“não é da cultura do brasileiro ter armas”— até os atos de apoiadores do presidente, que fazem ataques ao Supremo Tribunal Federal e pedem intervenção militar. “São muito mais retórica do que ações contra as instituições”, afirma Mourão.

Para o vice-presidente, os protestos têm uma repercussão muito pequena nas ruas, “muito pouca gente comparece”. O problema é que o presidente Bolsonaro saúda publicamente esses poucos que se aglomeram em frente ao Palácio da Alvorada praticamente todos os finais de semana.

No dia 31 de maio chegou a sobrevoar de helicóptero, ao lado do ministro da Defesa, Fernando Azevedo, uma dessas manifestações em que pessoas sustentavam faixas contra o Supremo. Mas o vice repete: “Não vejo hoje no país ameaça a nossa democracia.”

O formato engessado da conversa com o vice-presidente não permitiu contrastar as ponderações do vice, que não se vê como um representante das Forças Armadas —“sou um político atualmente”, afirmou.

O fato é que as sucessivas investidas de Brasília à ordem democrática fez jornais como o Financial Times e o New York Times questionarem, nos últimos dias, o destino desses flertes autoritários no Brasil.

“Ruptura não acontece no Brasil”

Mas, para Mourão, ruptura democrática houve de fato na Venezuela, onde ele viveu como adido militar da embaixada brasileira em Caracas, entre 2002 e 2004. “Ali eu realmente vi a democracia ser destruída e vi o que são ataques à imprensa”, disse ele, lembrando jornalistas sendo atacados na rua e ameaçados de morte por agentes do Governo, além de veículos sufocados por falta de recursos mínimos para funcionar.

“Isso não ocorre no Brasil”. De fato, não, ao menos por enquanto. Mas o presidente Bolsonaro repete arroubos autoritários, como no final do ano passado, quando tentou excluir o jornal Folha de São Paulo, por exemplo, de licitações de assinatura do Governo por não concordar com a cobertura crítica do jornal ao seu Governo. Depois, recuou, muito embora incentivasse empresas a parar de anunciar no veículo.

O presidente também ataca publicamente jornalistas, seja mandando calar a boca na frente de seus apoiadores, seja nas redes, especialmente mulheres, incitando ataques, amplificados por seus filhos, a jornalistas como Patricia Campos Mello.

Ataques ao Ministério da Saúde

Mourão integra um Governo que promove um clima belicoso em diversas instâncias, inclusive com os demais poderes, fomentando a interferência constante do Supremo Tribunal Federal, especialmente durante a pandemia de coronavírus, que já matou quase 40.000 pessoas no país.

Uma das mais recentes decisões da Corte diz respeito à mudança na metodologia empregada para divulgar os dados do Ministério da Saúde. No dia 5 de junho, sem prévio aviso, o Ministério alterou a forma de apresentar os casos e óbitos por covid-19 no Brasil. Com a mudança, os dados acumulados de casos e óbitos deixaram de ser divulgados.

No domingo, 7, o Governo chegou a retificar os números de mortos inicialmente publicizados reduzindo-os pela metade, o que acendeu o alerta de que os dados passariam a ser manipulados. Uma liminar do Supremo obrigou o Governo a voltar atrás e divulgar os dados da mesma forma que eram apresentados desde os primeiros registros da covid-19 no Brasil no final de fevereiro.

O ministro interino, o general Eduardo Pazuello, passou horas da terça, dia 9, dando explicações a deputados na Câmara sobre as mudanças que haviam sido feitas para garantir que números não estavam sendo omitidos, prática comum durante a ditadura militar.

Militares a cada curva

Questionado sobre a imagem das Forças Armadas diante da presença cada vez maior de militares no ministério —já são mais de 20— em meio à pior pandemia da história, o vice optou pelo distanciamento. “A gestão do Ministério da Saúde, apesar de estar nas mãos de um oficial general da ativa, não está nas mãos das Forças Armadas”, disse ele.

“Todo sistema de saúde tem sua gestão própria, o papel do Governo federal é estabelecer as políticas, facilitar as questões logísticas e distribuição de recursos necessários, para que Estados e municípios operem seus sistemas de saúde”.

O Governo já é alvo de ações na Justiça, e inclusive no Tribunal Penal Internacional, que questionam a condução das políticas de combate à pandemia. No limite, podem alcançar ministros militares do Governo.

A intenção de descolar, no entanto, é limitada aos olhos de observadores experientes, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), filho e neto de militares.

Em entrevista a este jornal, Cardoso disse que “quem será responsabilizado pelos erros do governo, que ou não, serão os militares”. No dia seguinte à publicação da entrevista, Mourão usou o Twitter para responder ao ex-presidente.

“Quanto à afirmação: os responsáveis pelos erros do governo, que ou não, serão os militares”; convidado ou ex-presidente FHC a refletir sobre a História do Brasil e verificar se não são eles que, mais uma vez, servindo ao Estado, “mantêm uma estabilidade institucional do país”.

“Cometemos erros no controle da Amazônia”

Apesar da negativa no FHC, Mourão registrou menos de um erro do governo na entrevista desta quarta-feira, sem o respeito à Amazônia. “O presidente teve consciência de que cometeu erros em relação ao combate ao desmatamento e às queimadas”, diz ele, que comanda o Conselho da Amazônia.

O desmatamento cresceu quase 35% entre agosto de 2018 e julho de 2019, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e a intenção de Mourão é que os resultados apareçam neste segundo semestre.

Uma ação do exército na região, que capturou por dois meses na floresta, pretende coibir ou desativar o que, segundo ou vice-versa, deve ser reduzida ao mínimo, como indicado em reunião ministerial desta terça-feira. Mas não respondeu quanto seria esse mínimo.

Apesar da imagem negativa do governo nessa questão, Mourão assegura que o Brasil não é o vilão da história.

“Não somos em hipótese alguma o vilão ambiental do mundo”, diz ele, lembrando que o país não queima petróleo e carvão para produzir energia, como outros países. “Em termos ambientais, temos uma das legislações mais avançadas”, disse ele na entrevista desta quarta.

No entanto, não foram poucas as tentativas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de perdoar vários setores ambientais de agricultores que desmatam áreas verdes ilegalmente.

Futuro da Amazônia?

O futuro da fiscalização da Amazônia, agora sob ordens de Mourão, é uma incógnita. Ele garante as condições necessárias para fortalecer os órgãos de fiscalização com a criação de 20 bases de apoio na região.

“Buscamos solução para reconstruir o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente] e o ICMBio e outras agências que ressentem a fiscalização”, preconiza. Uma ação de dois meses no Exército consumiu 60 milhões de reais na Amazônia, pouco menos que o orçamento anual do Ibama (75 milhões de reais).

Fiscalize é caro, observe Mourão, por usar recursos como helicóptero, aeronaves e viaturas especiais para transitar na região.

Uma ideia é convencer a Alemanha e a Noruega, patrocinadores do Fundo Amazônia, reativar recursos que foram suspensos desde que queimadas viraram notícias no mundo inteiro. “Estamos colocando medidas para que possam ser medidos resultados”, explica Mourão.

Otimista, acredita que, em dois meses, os recursos dos fundos liberados e das ações de fiscalização do Ibama e ICMBio serão financiados. “O Brasil é muito maior que os problemas sazonais que estamos vivendo”, disse ele quando questionado sobre uma imagem abalada do país no exterior.

Seu otimismo é obter uma visão de resiliência do governo que integra, com mais de 30 pedidos de impeachment e processos que pedem a cassação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral.

Mesmo com um índice de rejeição de 43%, segundo o último levantamento do Datafolha, contra 30% nos primeiros meses sem poder, a aposta que o governo tem condições climáticas até 2022, e quem sabe, “se o presidente se candidatar, sermos reeleitos”.

Fonte: El País // Créditos da imagem: Romério Cunha/VPR

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