Indígenas da Amazônia lançam fundo para enfrentar covid-19

Diante da circulação do novo coronavírus em aldeias por toda a Amazônia, lideranças dos nove países da região recorrem à comunidade internacional para socorrer os mais de 3 milhões de indígenas ameaçados pela pandemia.

O grupo um fundo para arrecadar recursos para combater o avanço da covid-19 e evitar mais mortes em decorrência da doença em seus territórios.

“Não vamos esperar mais pelo governo, pelas políticas sociais, porque não estão chegando a nossas comunidades”, afirma José Gregorio Díaz Mirabal, à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica). “Já sabemos que, na América Latina, ninguém quer nos apoiar. Nem governos, nem empresas. Esperamos solidariedade da comunidade internacional”, lamenta.

A carência é gritante, diz Mirabal. “Falta de tudo nesse momento. Nosso povo precisa de atenção, alimentos, máscara, testes para detectar a covid-19. Mal temos médicos nas comunidades. Precisamos desse fundo para comprar essas coisas”, acrescenta a liderança indígena.

Nas próximas duas semanas, a campanha, que conta com o apoio de organizações da sociedade civil, pretende arrecadar até 3 milhões de dólares. Num espaço de um mês, o objetivo é chegar ao dobro desse valor, conta Suzanne Pelletier, da Rainforest Foundation americana, uma das 19 ONGs envolvidas na iniciativa.

“A invisibilidade dos povos indígenas para os Estados é grande já faz muito tempo. Hoje, com a covid-19, podemos ver mais claramente que antes”, critica Julio César López, liderança indígena da Colômbia.

A ausência de estratégia nos nove países amazônicos para lidar com essas populações é criminosa, alega López. “Deixar que a pandemia avance é como acabar com a cultura indígena. É como a colonização dos anos de 1500”, compara.

Sem confiar em estatísticas oficiais, a Coica estima que haja 26 mil indígenas infectados atualmente em toda a Amazônia. “Nenhum governo tem um número real sobre os povos indígenas. Sabemos que são mais de 30 mortos. Mas pode ser 40, 60”, diz Mirabal sobre a dificuldade de acesso a dados.

No Brasil, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, contabiliza 152 casos confirmados, 41 suspeitos e 10 mortes. O acompanhamento feito pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), porém, soma 35 óbitos e 22 povos atingidos.

“A situação é ainda mais complicada no Brasil porque, além da covid-19, o presidente Bolsonaro, que desconsidera todo o aparato de combate à doença, ataca os povos indígenas a todo momento”, diz Elcio da Silva Manchineri, da Coiab.

Fonte: DW Foto: AP Photo/E. Peres

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