Coronavírus: Brasil caminha para a própria catástrofe econômica, social e política

O presidente Jair Bolsonaro se recusou a levar a pandemia de coronavírus a sério, apesar de mais de 17.500 brasileiros já terem morrido com o vírus. E o número de casos continua a crescer exponencialmente.

No fim de semana passado, dezenas de jovens passeavam pelo Rio de Janeiro, curtindo a vida noturna e se reunindo para tomar cervejas nos famosos calçadões da cidade. Ninguém usava a máscara facial obrigatória. Após dois meses de medidas de bloqueio generalizadas, os moradores dos bairros mais ricos da cidade ficaram felizes em estar fora de casa, aparentemente despreocupados com a pandemia do COVID-19 em andamento.

Mas nos bairros pobres da cidade, onde o coronavírus se espalha rapidamente, as pessoas ficam assustadas. Um balconista que entrega mantimentos para moradores em quarentena de bicicleta espera usar uma máscara e lavar as mãos com desinfetante para mantê-lo seguro. Sua esposa, que normalmente trabalha como faxineira para famílias ricas do Rio, fica em casa com medo de contrair o vírus. O casal mal consegue sobreviver.

Número 15 vezes maior

Em 19 de maio, o Brasil registrou o terceiro maior número mundial de infecções por COVID-19, com mais de 262.000 casos confirmados e pelo menos 17.500 mortes atribuídas à pandemia, segundo dados oficiais coletados pela Universidade Johns Hopkins.

Mas especialistas em saúde acreditam que, devido à falta de testes, o número real de infecções é provavelmente 15 vezes maior. Eles também suspeitam que pelo menos duas vezes mais pessoas tenham morrido do vírus; com hospitais estaduais com excesso de capacidade, um número crescente de vítimas do COVID-19 está morrendo em suas casas.

O número de casos de coronavírus está crescendo exponencialmente, e as filmagens de valas comuns nas cidades de Manaus e São Paulo foram espalhadas pelo mundo. Apesar dessa escalada crise de saúde pública, o presidente Jair Bolsonaro parece despreocupado.

Só uma gripe

Bolsonaro subestimou o COVID-19 como nada mais que uma “gripezinha” e acusou a China de alimentar a histeria. Ele acredita que a pandemia foi orquestrada exclusivamente para prejudicá-lo e ao presidente dos EUA, Donald Trump. Para mostrar que não estava preocupado, Bolsonaro e sua delegação fizeram uma visita oficial para se encontrar com Trump no início de março. Mas depois de voltar de sua viagem à Flórida, mais de 20 assessores de Bolsonaro deram positivo para o COVID-19 – um desastre de relações públicas para o presidente.

Bolsonaro, ex-paraquedista e atleta, tem ignorado os conselhos de saúde emitidos pela Organização Mundial da Saúde e suas próprias autoridades de saúde para praticar o distanciamento físico. Ele fez questão de apertar as mãos dos apoiadores e tirar selfies com eles, enquanto se reúnem do lado de fora do palácio presidencial todos os domingos para pedir o fim das restrições aos coronavírus. Bolsonaro declarou publicamente que, com sua “história como atleta”, ele só apresentaria sintomas leves de uma infecção por SARS-CoV-2.

Remédios não convencionais

Confrontado com o último número de mortos no COVID-19 no final de abril, Bolsonaro – nome do meio Messias – disse a repórteres: “Meu nome é Messias, mas não posso fazer milagres”. E, no entanto, ele pediu aos brasileiros que orem pela intervenção divina para ajudar a salvá-los do vírus.

Ecoando seu colega americano, Bolsonaro também estipulou que a cloroquina, um medicamento usado para prevenir e tratar a malária, seja usado para tratar pacientes com COVID-19. Conseqüentemente, ele ordenou que os laboratórios das forças armadas produzissem grandes quantidades da droga.

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde do Brasil, rejeitou o apoio do presidente à cloroquina – e foi demitido em abril. O sucessor de Mandetta, Nelson Teich, um oncologista em treinamento, também se recusou a recomendar o medicamento para os casos de COVID-19 e renunciou após apenas 28 dias no cargo.

Não há evidências que sugiram que a cloroquina seja eficaz no tratamento do COVID-19. Em abril, os cientistas brasileiros encerraram um estudo sobre a cloroquina após o desenvolvimento de problemas no ritmo cardíaco em cerca de um quarto das pessoas que tomaram as duas doses mais altas sendo testadas.

Alguns médicos temem que centenas de brasileiros tenham morrido nas últimas semanas por tomar o medicamento em casa sem supervisão médica. Apesar dessa notícia preocupante, o Ministério da Saúde – sob o comando do general interino da saúde Eduardo Pazuello – planeja declarar oficialmente a cloroquina como a droga preferida para o tratamento do vírus.

Governadores entram em ação

Mandetta e Teich atraíram a ira do presidente por endossar as ordens de distanciamento físico feitas pelos governadores e prefeitos brasileiros. Bolsonaro, que quer que a vida e a economia retornem ao normal o mais rápido possível, disse que as autoridades locais serão as únicas culpadas pelo aumento nos números de desemprego.

Nas principais cidades do Brasil, os apoiadores de Bolsonaro montaram caravanas para mostrar seu apoio ao presidente, protestando contra governadores e prefeitos de estado que disseram a todos os shopping centers e lojas não essenciais para fechar.

Como algumas regiões lutam com hospitais em capacidade máxima, os governos locais recorrem a medidas drásticas. As autoridades de certas partes do Rio de Janeiro impuseram bloqueios locais, e o estado mais populoso do país, São Paulo – que excedeu o número de mortos na China – está prestes a entrar em bloqueio também. A situação é ainda mais extrema no norte e nordeste do país. Hospitais em grandes cidades como Belém, Manaus e Fortaleza não têm leitos suficientes para tratar pacientes com coronavírus.

Atendendo a uma solicitação urgente do Congresso do Brasil, o governo Bolsonaro agora aprovou ajuda financeira para trabalhadoras informais e mães solteiras. Cerca de 50 milhões de pessoas, essencialmente uma em cada quatro brasileiras, são elegíveis. Milhares de pessoas já solicitaram o dinheiro, levando a cenas caóticas e longas filas fora dos bancos antes do primeiro pagamento – e provavelmente resultando em muitas novas infecções.

Fonte: DW // Créditos da imagem: Reuters/A. Machado

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