Brasil sofrerá a pior crise econômica de sua historia, dizem especialistas

O clima de “agora vai” em relação à economia brasileira que viu no início do ano, especialmente por parte do mercado, mostra um ritmo de subida da curva de morte pela covid-19. Se antes da pandemia já havia quem olhasse o produto para a recuperação da economia do país, que em 2019 avançou 1,1%, agora já não há dúvidas de que o Brasil vai para o final de 2020 e, possivelmente, também em 2021.

Isso não será, no entanto, mais uma crise. Para economistas entrevistados, pode ser o pior país que já viveu. Isso ocorre porque ela aumenta em um momento em que você pode recuperar o crescimento, ou seja, com uma economia ainda cambial e meio de instabilidade política. Além disso, não será possível contar com o setor externo, também seriamente afetado pela pandemia.

A soma da perspectiva econômica ruim e a instabilidade política da empresa Gavekal Research compara o Brasil a um prédio em chamas no seu relatório de investidores da última semana. “Neste momento, é melhor deixar o Brasil para especialistas, malucos, oportunistas de longo prazo e outras opções”, diz o texto assinado pelo economista Armando Castelar.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) de 5,3%, enquanto uma previsão mais recente do governo é de 4,7%. Quaisquer desses números já representam a pior retração desde 1901, quando começaram o levantamento mais confiável do indicador. Até hoje, o maior declínio foi de 4,35%, em 1990.

“Com base nos nossos indicadores de confiança, sentimento e ciclo, esta realmente está sendo uma crise atípica e mais intensa que qualquer outra coisa que tenhamos observado”, afirma a economista do Ibre-FGV Viviane Seda.

Em uma projeção da Genial Investimentos, o PIB apresenta um número bastante sensível ao número de dias em que a economia parou. No cenário mais otimista, com 50 dias de isolamento social, ou seriamente 3,3%. Não mais pessimista, de 70 dias, uma cifra vai para 8,6%.

Mas não é só o PIB que espera um registro. Um taxa de desemprego pode chegar a 18,7% no país – ante os atuais 12,2% – até o final deste ano, na estimativa da Fundação Getulio Vargas (FGV). Seria a maior desde os anos 1980, quando iniciou uma pesquisa, foi coordenadora do boletim macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV), Silvia Mattos.

Isso ocorre porque, no passado, o economista, apesar de o Brasil ter vivido uma série de crises, a inflação aumenta tanto quanto as vendas que acabam não sendo tão caras mantêm as tarefas. O cenário é diferente hoje.

Desemprego em 20%

Esses quase 19% representam 19,6 milhões de brasileiros sem trabalho em algum lugar até o final deste ano – sem contar os que nunca entraram em estatística porque simplesmente desistem de procurar uma vaga.

Quando olha apenas para vagas com carteira assinada, estimativa do governo federal, divulgada na sexta-feira (15/05), pelo jornal O Globo, perda de 3 milhões de postos de trabalho. Seria a maior destruição de vagas já registrada no país, superior ao que viu nos três anos da última crise, entre 2015 e 2017.

“Tem um recurso diferente desta vez, o setor de serviços, que é mais prejudicado, e foi o que sustentou um pouco a recuperação da economia”, explica Mattos. Explica Mattos. O choque no setor, que precisamente está parado por conta das políticas de quarentena para combater o novo coronavírus, impacta muito porque os serviços respondem por dois terços do PIB e dos empregos do país.

A FGV espera uma retração de 4,4% nos serviços e 7,4% na indústria. A construção civil, segmento da indústria que amarga por cinco anos seguidos e apenas no ano passado voltou a crescer, deve crescer 11,4%. Isso também é dramático para o mercado de trabalho, já que o setor é um dos mais intensivos na mão de obra no contexto brasileiro. A agropecuária é o único setor com previsão de alta, de 2,9%.

Juliana Inhasz, coordenadora do departamento de economia do Insper, alerta ainda para uma perspectiva de agravamento da desigualdade: “Deve haver uma pior distribuição de renda, porque quem é mais afetado é a população da periferia, que normalmente está alocado em estudos mais vulneráveis ​​e está perdendo o emprego com mais facilidade neste momento”, explica. “E outras variáveis ​​vem junto, como a pior diferença salarial entre os gêneros, porque o momento começa a desfavorecer várias reivindicações”.

90 Milhões pediram o Auxílio

A crise do coronavírus já levou 1,5 milhão de brasileiros para o seguro-desemprego. Entre março e abril, houve alta de 31% nos pedidos comparados com o mesmo período do ano passado, conforme dados do Ministério da Economia. Quem não perdeu o emprego teve salário e jornada reduzidos. Mais de 7 milhões de trabalhadores estão sob esse novo regime, e recebem, em média, 752 reais mensais.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, mostrou, na última sexta-feira, que o trimestre encerrado em março registrou 12,2% de taxa de desocupação, ante 12,7% no mesmo período de 2019. aumento na comparação com o trimestre anterior – 1,2 milhão a mais de desempregados -, mas é necessário considerar um efeito sazonal do término das vagas temporárias de Natal.

A PNAD do primeiro trimestre é, entretanto, um indicativo parcial da crise do coronavírus, já que as políticas de quarentena afetam efetivamente na segunda quinzena de março. A expectativa é que o período a seguir à pesquisa seja um quadro mais adequado para o impacto da pandemia.

O volume de serviços em março, divulgado pelo IBGE, mostrou um retorno de 6,9% em comparação com fevereiro, já com ajuste sazonal. É a pior queda da série histórica, que começa em 2011. Na comparação com março de 2019, o volume de serviços recupera 2,7%, interrompendo uma sequência de seis taxas positivas.

O setor industrial também tem seus registros para apresentação. Em uma pesquisa da FGV com 1006 empresas do setor de transformação, 14,4% declararam ter paralisado a produção em abril, o maior da série histórica, que começa em 2001. A produção de veículos, calçados e roupas foram os que mais sofreram . Mesmo nas crises de 2008-2009 e 2014-2016, a média de empresas paralisadas não passou de 2%.

Além disso, uma produção industrial brasileira recebeu 9,1% em março, na comparação com fevereiro, ou o pior resultado para março da série histórica de pesquisa do IBGE, iniciada em 2002.

Por fim, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prioridade do PIB, caiu 5,9% em março na comparação com o mês anterior.

Política Caótica

Uma pandemia que afeta economicamente ou em todo o mundo: o FMI espera retração global de 3%, a maior desde a crise de 1929. Mas o Brasil tem o ingrediente da instabilidade política, com trocas constantes de ministros, pedidos de impeachment, brigas entre o Executivo e o Legislativo e entre o presidente da República e governadores.

Se até aqui o consumo vinha atingindo o crescimento, agora já não pode contar tanto com ele. E para contar com investimentos, sejam internos ou externos, é uma previsibilidade precisa – uma incerteza é uma das coisas que mais atrai o investimento. O Indicador de Incerteza de Economia (IIE-Br) da FGV bateu recorde histórico em março, ficou 30 pontos acima do recorde anterior, de setembro de 2015, período em que o país enfrentou recessão e logo após o Brasil ter perdido grau de investimento.

“Essa incerteza política não deve aumentar no meio de um agente comum, que é destrutivo e ninguém ganha com essa situação, o natural deve ser até um resfriamento”, diz Mattos.

A incerteza política afeta também os taxa de câmbio, segundo economistas. O dólar americano disparou neste ano diante de todo o tipo de moeda, mas quando comparada com outras moedas de países emergentes, ela vê que foi mais desvalorizada, com perda de 30%. Isso apesar do Banco Central estar executando reservas de moeda estrangeira, que caíram 386 bilhões de dólares em agosto por 339 bilhões em abril.

Claro que na conta da desvalorização do dólar real também entra um taxa de juros. Com os cortes de impostos básicos Selic, que tem mínimos históricos, é consequência lógica de fuga de moeda estrangeira. Mas, se os juros baixos afastam investidores estrangeiros de curto prazo, devem fazer o investimento médio e longo prazo crescer, ou que já não vinham ocorrendo antes da pandemia.

Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, uma incerteza política terá mais efeito no processo de reforma, e menos no curto prazo. “Eu acho que não curto prazo ou impacto mais importante é o isolamento, mas não médio e longo prazo tem o impacto da incerteza da política na rapidez com que a economia volta”, disponível.

Fonte: DW // Créditos da imagem: Getty/C. de Souza

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