Ex-aliado revela novas informações que acusam Bolsonaro de interferência na PF

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, retomou nesta segunda-feira (18) o inquérito que apura como acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro de que o presidente Jair Bolsonaro realizou interferências na Polícia Federal do Rio de Janeiro para proteger seus filhos, alvos de investigação. A retomada do assunto já estava na agenda do Supremo.

Mas o presidente não contava com uma entrevista dada pelo empresário Paulo Marinho, seu ex-aliado, ao jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. Marinho, que foi suplente do senador Flavio Bolsonaro e teve um papel decisivo na campanha eleitoral então presidenciável da PSL em 2018, revelou que o filho do presidente soube antecipadamente de uma operação da Polícia Federal que atingiu Fabricio Queiroz, seu ex-assessor.

Uma informação chegou a Flavio entre o primeiro e o segundo turno da seleção e acabou protegendo Queiroz e o próprio Flavio, com a apuração sobre como rachadinhas em seu gabinete.

Uma revelação joga mais uma crise política que acusa o presidente, e eleva a pressão sobre o procurador geral da República, Augusto Aras, que está envolvido na investigação de crimes que o presidente pode ter cometido, seguindo as acusações de Moro. Marinho contou que Flavio soube por intermédio de um delegado simpatizante de Bolsonaro sobre o curso de operação Furna de Onça, que investiga as suspeitas de dinheiro e passa pelas chamadas ‘rachadinhas’ da Assembleia Legislativa do Rio. Queiroz, amigo de longa data do presidente, trabalha para Flavio quando era deputado estadual.

O atual senador foi deputado entre 2003 e 2018. “Eu vou contar uma história que nunca foi revertida antes porque não havia razão para falar disso. Eu tenho até dados anotados e você será bem preciso no relacionamento que você fará ”, disse Marinho na entrevista.

O empresário, que transformou sua casa em QG da campanha bolsista, deu detalhes de 13 de dezembro de 2018, quando foi procurado por Flavio Bolsonaro pedindo indicação em um advogado criminalista.

Dias antes, a imprensa havia revelado que Queiroz havia movimentado 1,2 milhão de reais em contas suspeitas ao longo de um ano. Segundo Marinho, Flavio soube investigar sobre Queiroz logo após a primeira vez que selecionou, em outubro. Pelos ouvidos ouvidos pelo próprio Flavio e seu advogado, o Marinho reproduz ou delega os critérios mencionados por um interlocutor de Flavio, o Coronel Braga, hoje chefe do seu gabinete no Senado. “Será deflagrada a Operação Furna de Onça, que atingirá em cheio a Assembleia Legislativa do Rio. E essa operação vai alcançar algumas pessoas no gabinete do Flavio. Uma delas é o Queiroz e uma filha dele, Nathalia”.

Personal trainer, Nathalia era empregada no gabinete de Jair Bolsonaro quando era deputado, e a imprensa descobriu que não cumpria expediente, mesmo ganhando salário. Queiroz está desaparecido e não responde a requisições da Justiça, que já concluiu que ele movimentou uma verdade de até 6 milhões de reais, incluindo as ‘rachadinhas’ que foram atingidas pelo senador Flavio Bolsonaro.

O vazamento espontâneo da agenda de operações da PF ainda contou com outro detalhe preocupante. Segundo Marinho, o delegado simpatizante de Bolsonaro disse ao coronel Braga que a operação é adiada para não atrapalhar ou segundo turno.

A entrevista bomba gerou uma petição do deputado Marcelo Calero (Cidadania-RJ) para Paulo Marinho e os demais nomes citados por ele na entrevista pode ser ouvida no exame de investigação conduzido pelo ministro Celso de Mello.

“As informações divulgadas pelo então apoiador [Paulo Marinho] revelaram conexões com a investigação atual no STF, que interfere nas políticas da Polícia Federal”, diz. Também um PGR se manifesta sobre o assunto. Segundo o jornal O Globo, um ofício enviado à Polícia Federal para o depoimento de Marinho foi incluído no registro de possíveis interferências do presidente na PF.

O senador Flavio Bolsonaro se defendeu dizendo que nunca foi alvo da operação Furna de Onça que desmentiu seu substituto. “Nem eu, nem meu ex-avaliador, é alvo da operação da Polícia Federal (PF) denominada“ Furna da Onça ”. Mas, segundo meu suplente Paulo Marinho (agora assumidamente representante de Dória no Rio – PSDB), eu recebi informações de que um PF investigou meu ex-assessor”.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, procurou mostrar mais tranquilidade em uma aparição para apoiadores na Brasília, como tem feito nos últimos domingos. Acompanhado por 11 ministérios, e usando máscaras de proteção, assisti uma vez criada em seu apoio e ativada para uma centena de manifestantes que aparecer na porta do Palácio do Planalto.

“Agradeço a todos que estão aqui; os que torcem para o Brasil realmente ocupam o lugar de destaque que ele merece. Nenhuma faixa, nenhuma bandeira que atente contra nossa Constituição ou contra o Estado Democrático de Direito. O movimento está de parabéns “, afirmou Bolsonaro, em vídeo divulgado nas redes sociais.

Sai o presidente que diz “quem manda sou eu” e abraça manifestantes com bandeiras pelo AI-5, entra o presidente preocupado com instituições. Sem partido e negociando com o Centrão, formado por deputados que sempre renegam, Bolsonaro se apoia em pequenos núcleos radicais produzindo imagens favoráveis ​​a si mesmo para redes.

“Emocionante, uma manifestação espontânea, pacífica. É muito gratificante e honroso da minha parte e meu ministério recebe uma manifestação de apoio neste sentido ”, repetido ou presidente, desta vez, em tom conciliador, após semanas de incorporação com os demais recursos, onde seus participantes não se furtaram a pedir, inclusive, uma volta da ditadura militar.

Mas apesar dos atos de apoio, os panelas voltaram com força até a última semana em vários pontos do país. Agora ou presidente – e o Brasil – aguarde os próximos capítulos desta novela que apresenta os militares e o governo na mesma panela de pressão política em plena pandemia.

Com o posto de ministro da Saúde vago e uma investigação em curso no Supremo, Bolsonaro inicia mais uma semana na frente do país que já é o quarto em número de infectados pela covid-19 no mundo, lutando contra o uso que tem sido roubado apoio de outrora.

Uma transcrição do vídeo da reunião ministerial de final de abril, próxima à saída do Moro e a fonte de acusações de Bolsonaro que interferem na PF do Rio, já trazem conteúdo comprometido. “Já tentei trocar o pessoal da segurança no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui.

Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança da ponta da linha que pertence à estrutura ”. Uma referência era uma eventual troca na superintendência do Rio, que não tinha a avalição do diretor geral da PF, Maurício Valeixo, aliado de Moro. Qualquer investigação que envolva Flavio e Queiroz passa pelo Rio.

Fonte: El País // Créditos da imagem: ADRIANO MACHADO / Reuters

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