Enquanto Bolsonaro apoia a cloroquina, Trump já a descartou

Uma oncologista Nise Yamaguchi, uma das profissionais cotadas para assumir o Ministério da Saúde, retornou como defensora do uso da hidroxicloroquina e afirmou que está preparado para assumir uma massa. As declarações foram dadas pela médica em duas entrevistas hoje, na Rádio Bandeirantes e na CNN.

Nise defendeu o uso de medicamentos em pacientes leves e moderados com coronavírus e disse que o medicamento era usado em pacientes que ainda não tinham sido internados. “Se você trata precocemente existe um benefício maior e você não evolui para uma necessidade de intubação, de internação”, declarou à Rádio Bandeirantes.

A médica também defendeu uma distribuição mais ampla do medicamento. “A minha ideia seria dar condições para os médicos, sob autorização do CFM (Conselho Federal de Medicina), prescrever e obter acesso a essas medicações em situações mais leves e moderadas”, defendeu.

Em relação à logística do medicamento, em entrevista à CNN na tarde de hoje, Nise elogiou a escolha do general Eduardo Pazuello, que assumiu interinamente o Ministério. “Nesse sentido ou em geral, Pazuello é especialista em logística e tem uma capacidade ampliada nesse sentido, e parece que ele está disponível em algum lugar nessa direção”.

Resultado: Mortes

Apesar do entusiasmo político em relação ao medicamento, usado contra a malária, estudos científicos não mostram benefícios da droga para o tratamento da covid-19.

Feita por pesquisadores de Manaus (AM), uma pesquisa avaliou os efeitos da cloroquina em pacientes infectados pelo coronavírus. Para o teste, foram adotadas duas dosagens diferentes. O estudo, feito com 81 participantes, ligou altas doses da cloroquina a mais mortes.

As dosagens adotadas foram de 600mg duas vezes ao dia, ao longo de dez dias; e 450 mg por cinco dias, com aplicação duas vezes ao dia apenas logo no primeiro dia de tratamento. Os indivíduos receberam o medicamento por meio de uma sonda nasogástrica. A taxa de mortalidade foi mais alta entre as pessoas que receberam maior dosagem do medicamento: 17% contra 13,5% no segundo grupo, que recebeu dosagem menor de cloroquina. Junto ao remédio, também foram dados ceftriaxona e azitromicina aos pacientes.

A variante hidroxocloroquina tem evidências científicas mais robustas quanto à sua ineficácia no combate ao coronavírus. Dois estudos feitos com mais de mil participantes mostram que o medicamento não foi eficaz no tratamento da covid-19 para reduzir o número de mortes.

O maior estudo sobre o medicamento hidroxicloroquina, usado para artrite e lúpus, não mostra redução de mortes de pacientes com covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. A pesquisa envolveu 1.438 pessoas e avaliou o impacto do remédio tanto com como sem o antibiótico azitromicina. Divididos em quatro grupos, os resultados não foram promissores:

– 25,7% dos pacientes que receberam hidroxicloroquina e azitromicina morreram;

– 19,9% dos pacientes que receberam hidroxicloroquina morreram;

– 10% dos pacientes que receberam azitromicina morreram;

– 12,7% dos pacientes do grupo de controle morreram;

Validado pelo processo de análise de pares, uma certificação importante na comunidade científica global, o segundo maior estudo já feito sobre o uso da hidroxicloroquina no combate à covid-19 mostra que o medicamento não é efetivo no tratamento da doença. A pesquisa foi feita por pesquisadores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, com 1.376 pacientes.

Trump já abandonou a droga

Donald Trump abraçou a ideia de que a cloroquina seria uma solução para a covid-19 e a economia da economia americana. Em 19 de março, contrariando médicos e especialistas da Casa Branca, vendeu a esperança de cura. “Se não sair como planejado, não vai matar ninguém”, disse. No entanto, depois que a Fox News, começou a divulgar estudos que atestaram a ineficácia do medicamento, em 21 de abril, ou o presidente vem evitando o assunto.

Até então, a Fox News, emissora favorita dos conservadores americanos, vinha dando pouca importância aos estudos que já questionavam a droga. O fato de a Fox ter abandonado a era da cloroquina como um sinal de Trump também desistiu da ideia. “Temos muitos bons resultados e temos alguns resultados que talvez não sejam tão bons”, respondeu Trump, dois dias depois, em 23 de abril, quando questionado sobre porque parou de defender ou usar o medicamento.

O silêncio coincide com a publicação de estudos científicos que questionam a eficácia da cloroquina no tratamento de coronavírus ou apontam efeitos indesejados. O presidente também foi pressionado pelas acusações de Rick Bright, médico que liderou a agência dos EUA envolvida no desenvolvimento de vacinas, que foi removido após o teste de comprovação técnica para adoção do remédio.

O site do jornal Político fez uma revisão nas coletivas e na cobertura do assunto e concluiu, no dia 20 de abril, que “Trump e uma mídia conservadora reduziram sutilmente a defesa da cloroquina como cura para o coronavírus”. No Washington Post, uma mudança foi retratada como “uma ascensão e queda da obsessão de Trump com hidroxicloroquina”.

O desenho entre Trump e a ciência fica evidente nas coletivas na Casa Branca. Anthony Fauci, médico da força-tarefa criada pelo governo para conter o vírus, era frequentemente questionado sobre a eficácia da droga minutos depois de Trump promover o medicamento. Com o presidente ao lado, Fauci limita a dizer que os testes eram, no máximo, “sugestivos”, mas que ainda precisavam de confirmação.

A prescrição de cloroquina nos EUA cresceu mais de 46 vezes depois de Trump defender a droga na TV, em março, segundo o New York Times. Duas pessoas morrem depois de se automedicarem com o uso do remédio. “A cloroquina pode fazer mal a pacientes que já estão em posição vulnerável. Eles ainda sofrem mais com a perda de uso de medicamentos”, disse Luciana Borio, ex-diretora do Conselho de Segurança Nacional e ex-chefe da FDA , agência reguladora de drogas e alimentos nos EUA.

Quando ainda promovia uma droga, a Fox levava às histórias de pacientes condenados por uma droga que tinha sido motivo de sua recuperação. Os comentaristas da emissora costumam apontar os “milagres” do remédio, que já vinha sendo criticado publicamente.

A realidade bateu na porta no dia 21 de abril, quando uma emissora divulgou o estudo mais recente feito nos EUA, que mostrou que a droga não tinha benefícios no tratamento da covid-19. Segundo a ONG Media Matters, que monitora a desinformação e acompanha a cobertura da Fox desde março, entre os dias 11 e 15 de abril, ou o canal mencionado ou tratamento 87 vezes. No período seguinte, entre 16 e 20 de abril, o número de menções caiu para 20.

Fonte: Exame/UOL/FolhaVitória/AFP // Créditos da imagem: NARINDER NANU via AFP

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