Nicarágua ensina como promover um evento de lutas com público em tempos de pandemia

Um lutador é pulverizado com desinfetante antes da luta como parte das medidas de sanitização e desinfecção adotadas pelos promotores do evento. ( Créditos | Cortesia : ( C ) Búfalo Boxing Promotions | The Sun | @tvboxeo | Instagram ).

As competições esportivas não param na Nicarágua : jogos de futebol profissional, partidas de basebol, provas de ciclismo ou lutas de boxe acontecem todos os dias como se a pandemia do coronavírus não existisse.

Nesta semana, serão disputadas outras provas de ciclismo e jogos beisebol, além de lutas de boxe em campos abertos, parques ou ginásios espaçosos para evitar a contaminação e propagação do vírus.

O presidente do país, Daniel Ortega, garantiu na quarta-feira passada, em sua primeira aparição pública após um mês de ausência, que o avanço da pandemia no país é “lento” e se recusou a decretar quarentena, fechar as fronteiras ou exigir o distanciamento social, medidas adotadas por grande parte dos países do mundo.

O MINSA ( Ministério da Saúde ) também diz que tudo está sob controle e garante que apenas 11 casos do novo coronavírus foram confirmados por lá, com três mortes, apesar da imprensa local assegurar a existência de mais de 32 mil casos da Covid-19 no país.

Polêmicas à parte, na noite de sábado, ( 25 de abril ), foi realizado mais um evento de boxe profissional no país que é um dos mais pobres do hemisfério.

As lutas tiveram lugar no Centro Esportivo Alexis Argüello ( Polideportivo Alexis Argüello ), em Manágua, capital da Nicarágua.
Aproximadamente 800 fãs compareceram ao ginásio ( o ingresso foi distribuído gratuitamente ), que tem capacidade para 8097 pessoas.

O evento – promovido por Rosendo Alvarez, ex-campeão mundial em duas categorias e conhecido como “El Búfalo” – teve que se adequar à algumas disposições locais para garantir a saúde e a segurança de todos os envolvidos.

-“Os boxeadores nicaraguenses estão morrendo de fome. Eles não podem ficar trancados em casa. Nosso país é pobre. Aqui na Nicarágua não há quarentena.”-justificou o promotor.

O ringue foi esterilizado várias vezes ao dia por um especialista e até mesmo os pugilistas foram foram pulverizados com desinfetante antes das lutas. Seus treinadores e outros ‘córners’ usavam máscaras por toda parte, assim como todos os outros ao redor do ringue, o que incluía as ‘ring girls’, os cinegrafistas e fotógrafos, que estavam dentro ou perto do aréa do ringue. O mesmo foi válido para os oficiais do ringue, juízes e árbitros.

Antes de entrar no ginásio, todos – incluindo a lenda nicaraguense e o atual campeão mundial da WBA, Roman “Chocolatito” Gonzalez – foram convidados a limpar a parte de baixo dos sapatos, tiveram a sua a temperatura corporal medida e se higienizaram com um produto desinfetante que foi borrifado nas mãos.

Também foi pedido ao público que não sentassem a menos de um metro – se possível, cerca de um metro e meio – um do outro.

Não custa lembrar que o público que se fez presente era composto por pessoas várias faixas etárias, incluindo crianças, e isso foi possível graças às medidas de sanitização e desinfecção adotadas pelos promotores do evento.

Apesar de todas estas medidas de segurança que foram tomadas para impedir a contaminação e propagação do novo coronavírus, a direção da ESPN proibiu os seus funcionários de participar da transmissão do evento.
Assim sendo, a transmissão das lutas pelo Canal 6 ( da Nicarágua ) e pela ESPN Latin America só foi possível graças à equipe do Canal 6 que colocou o seu pessoal dentro do ginásio.

A noite inteira foi um pouco incomum – mas este poderá ser o novo normal ainda por algum tempo.

A programação foi composta por oito lutas e entres estas, Robin Zamora ( 16-7, 8 KO’s ) e Ramiro Blanco ( 18-7-3, 10 KO’s ) protagonizaram uma luta realmente digna de ‘main event’ ( evento principal ).
A dupla já havia se enfrentado em lutas anteriores e dessa vez Blanco mostrou muita disposição na “trocação”, conseguindo acertar muitos socos, mas foi contido por Zamora, que acabou vencendo nas pontuações dos jurados ( 77-75, 78-74 e 77-75 ).

Em outra luta do ‘card’, o peso meio-médio Freddy Fonseca ( 28-5-1, 19 KO’s ) estava no controle e seu adversário Alain Aguilar não aparentava ser uma grande ameaça até o quarto round. Mas o duelo teve um final bastante bizarro quando Aguilar se recusou a sair do banco no início do quinto round, e recebeu uma contagem até 10. A luta foi então decidida à favor de Fonseca, que acabou vencendo por nocaute técnico no quinto round.

Já o prospecto do peso-médio Gabriel Escalante ( 13-0, 7 KO’s ) permaneceu invicto com uma vitória por nocaute no quinto round sobre Mario Mairena ( 2-20-1, 1 KO ).

A melhor luta do ‘undercard’ ocorreu na divisão peso-palha entre Eliezer Gazo ( 18-11-2, 3 KOs ) e Byron Castellon ( 15-13, 3, 2 KO’s ), que foi bastante equilibrada. Os dois lutadores veteranos soltaram as mãos e mantiveram um ritmo acelerado e constante até o término dos seis rounds. Castellon acabou vencendo Gazo pelo placar de 59 a 55.

Em disputa válida pela categoria dos penas marcada para seis rounds, Bryan Perez ( 12-11-1, 11 KO’s ) encarou o canhoto Lester Lara ( 16-11-2, 7 KO’s ) e o levou à lona com um gancho de esquerda no final do segundo round. Lara conseguiu se levantar e continuar, mas foi atingido quase imediatamente pela direita do seu oponente que o derrubou pela segunda vez, apenas alguns segundos antes da luta ser encerrada.

*Texto do colaborador Oriosvaldo Costa. | Escrito em 28/04/2020

Os cerca de 800 fãs que compareceram ao ginásio usavam máscaras e sentavam à um metro de distância, como preconizam as normas de distanciamento social. ( Créditos | Cortesia : Getty Images | Reuters ).
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