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Coronavírus: por que combater vírus está mais difícil nos dias de hoje?

Por: Alana Ambrosio / Yahoo Noticias.

A globalização encurtou distâncias: no mesmo dia é possível ir de um continente ao outro, misturar diferentes culturas, pessoas… E vírus. A Organização Mundial de Saúde estima que pelo menos trinta novas doenças infecciosas tenham surgido nas últimas duas décadas.

Apesar de serem velhos conhecidos, o ser humano ainda não encontrou uma forma de combate eficaz contra os vírus na mesma proporção que antibióticos foram desenvolvidos para extirpar doenças bacterianas.

Inúmeras patologias provocadas por vírus têm um padrão de disseminação mais rápido. Muito além da Covid-19, integram a lista de epidemias mais poderosas do mundo moderno o Ebola, HIV, Sarampo, Hepatites, H1N1, Dengue, Herpes, Caxumba e Febre Amarela.

Os vírus são considerados “zumbis” da natureza. Fora das células de hospedeiros não passam de uma partícula infecciosa incapaz de se dividir ou produzir energia. Porém, quando conseguem entrar, passam a se multiplicar e ganhar vida. Na maior parte dos casos, o genoma é composto por RNA, o ácido ribonucleico, mas há exceções com presença de DNA.

Já as bactérias são criaturas mais complexas: autossuficientes, são formadas por uma célula já com material genético e capaz de produzir energia. A elas são atribuídas enfermidades como pneumonia, tuberculose, tétano, e sífilis. Bactérias, assim como seres humanos, carregam DNA na estrutura genética.

Por isso, encontrar respostas para algo em constante transformação dificulta a elaboração de antídotos, como explica

Luciana Costa, diretora-adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“O vírus consegue ficar mais forte errando. O RNA é uma substância muito menos estável do que o DNA, não tem sequenciamento genético. Então quando o vírus passa a se multiplicar na célula, o processo pode dar errado e causar a própria eliminação. Mas também pode dar certo para o vírus, fazer com que um organismo já imunizado fique novamente despreparado para aquela doença.”

NOVA ONDA

Cientistas estimam que mais da metade das doenças infecciosas do mundo tenham sido passadas aos humanos pelos animais. Para exemplificar, o HIV tem semelhança com vírus que infectaram macacos no começo do século passado, o da imunodeficiência símia. Já as gripes têm origem de aves e porcos que sofriam da mesma doença. A peste bovina que infectava o gado evoluiu no ser humano para o sarampo. Enquanto a Covid-19 conseguiu migrar de morcegos e pangolins para pessoas.

As interferências do homem no meio ambiente têm tudo a ver com essas novas doenças, pois o desmatamento e as mudanças climáticas fazem com que animais e humanos tenham mais contato. E, assim, o risco de transmissão desses micro-organismos aumenta.

O infectologista do Hospital Emílio Ribas, Jean Gorinchteyn, explica que isso acontece pelas semelhanças genéticas dos humanos com outros animais:

“É muito comum que você tenha animais junto de seres humanos morando em pequenas propriedades e isso acaba fomentando uma mutação muito grande do vírus. Na medida em que sofrem modificações do material genético, começam a se espalhar entre os humanos. Realmente, essa capacidade de alterar a composição faz com que o vírus fique mais transmissível e perigoso com o tempo.”

As aglomerações, aquecimento global, deterioração do meio ambiente e outras invasões de espaço típicas do mundo moderno são um prato cheio para os vírus e bactérias. Gisele Sanglard, pesquisadora especialista em história da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz , explica como o controle de qualquer doença é prejudicado pelo vai e vem de pessoas:

“Os meios de transporte são aliados das pandemias. Por isso as medidas de contenção são tão importantes. Isso não é novo, antigamente uma viagem de navio entre países poderia durar meses e mesmo assim os governantes já as colocavam em prática o fechamento de fronteiras. Veneza, na Itália, foi a primeira cidade-estado a colocar isso em pratica seiscentos anos atrás. Em uma tentativa de contenção da peste bubônica, o Governo proibiu a entrada e saída de navios.”

SEM RESPOSTA

A forma de tratamento difere as doenças causadas por vírus e bactérias.

No começo do século passado a medicina foi revolucionada pelos antibióticos. A descoberta da penicilina feita pelo cientista inglês Alex Fleming possibilitou o tratamento de infecções bacterianas. Desde então, variáveis do medicamento foram desenvolvidos para combater inúmeras enfermidades. Basicamente, o antibiótico impede que a bactéria continue se multiplicando no nosso corpo. Ele atua no sistema central da célula, semelhante entre os vários tipos de agentes. É por isso que o medicamento tem um espectro tão grande, podendo ser eficaz contra uma gama de doenças.

O combate aos vírus não é tão simples assim. Como a mutação genética é maior, é mais difícil criar um remédio que anule a replicação em tantos tipos virais possíveis.

Essas mutações constantes podem fazer com que os remédios deixem de funcionar. No caso dos vírus, muitas vezes precisamos usá-los de forma combinada (os chamados coquetéis) para que esses mutantes resistentes sejam eliminados.

A forma de contaminação também tende a ser mais simples. Se pegarmos o exemplo da febre amarela, dengue e zika vírus, doenças transmitidas pela picada do mosquito, a infecção ocorre mesmo se a pessoa for saudável. Nas doenças causadas por bactérias, é comum ser necessário um contato mais intenso para acontecer a transmissão (como na gonorreia ou sífilis) ou que a pessoa já tenha algum problema pré-existente para ficar vulnerável.

As vacinas, em sua grande maioria, funcionam apenas para evitar o problema e não eliminá-lo após a contaminação. Outro desafio dos pesquisadores é criar remédios capazes de separar o vírus da célula infectada, uma vez que esses só sobrevivem se a invasão ao corpo alheio for muito bem feita.

A humanidade luta contra doenças causadas por esses microorganismos desde sempre, mas ainda está longe de vencê-los. Conforme dados da Organização Mundial de Saúde, 17 milhões de pessoas morrem todos os anos por doenças infecciosas. No total, existem 1.400 espécies conhecidas de patógenos humanos (incluindo vírus, bactérias, fungos, protozoários e etc) e, embora o número pareça grande, representa menos de 1% do número total de espécies do planeta.

Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que o mundo esteja passando por uma segunda onda de novas doenças, cuja dimensão ainda é desconhecida.

Fonte: Yahoo Notícias.

Imagem – divulgação.

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