Decisões de Bolsonaro geram críticas, de aliados e eleitores

Grande parte do Brasil está encerrada. Governadores impõem quarentenas rigorosas. O ministro da Saúde pede às pessoas que fiquem em casa, alertando que, a menos que a transmissão seja reduzida, o sistema de saúde entrará em colapso até o final de abril. Até gangues de traficantes fecharam favelas para impedir a disseminação do coronavírus. Enquanto isso, um cidadão desrespeita as restrições e sai para passear no mercado local. Facebook e Twitter removem suas postagens por divulgar remédios não comprovados e atacar o distanciamento físico. Um homem normalmente não pode causar muitos danos. Este é o presidente do maior país da América Latina.

A ascensão de Jair Bolsonaro sempre surpreendeu a mídia internacional, e seu histórico desde que assumiu o poder no ano passado – com ataques a direitos humanos, minorias, artes, universidades e destruição da Amazônia – tem sido recebido com críticas internacionais. Sua resposta ao coronavírus atingiu um novo patamar. Muitos governos terão que responder por seus erros e complacência quando a pandemia terminar. O desempenho de Bolsonaro está em uma liga própria.

Ele repetidamente descartou o coronavírus como “apenas uma gripezinha” ou “um pouco de resfriado” e como um truque ou fantasia da mídia. Tendo finalmente reconhecido sua realidade, ele disse às pessoas que “encaram isso como homens, não crianças. Todos nós vamos morrer um dia “e pedimos ao país que” volte ao normal “- como se isso fosse possível.

Conhecer e cumprimentar seus cidadãos em Brasília no último final de semana foi duplamente irresponsável, dado seu contato próximo com casos conhecidos de coronavírus: o perigo não é apenas as mensagens que ele enviou, mas o risco físico que ele pode representar para os outros. (Fox News relatou recentemente que o filho de Bolsonaro disse que seu pai havia testado positivo, embora isso tenha sido negado mais tarde.)

O governador de São Paulo, o estado mais populoso e economicamente poderoso do Brasil, disse ao público para não seguir as orientações do presidente. O próprio ministro da Saúde de Bolsonaro alertou que teria que contradizê-lo publicamente, aparentemente recuando apenas depois que ele foi ameaçado com o saco.

O Brasil já possui 4.579 casos confirmados e 159 mortes. Em um país de 210 milhões de pessoas, o curso imprudente do presidente pode ser a diferença entre dezenas ou centenas de milhares de mortes. O perigo para os povos indígenas – pelos quais o desprezo de Bolsonaro é bem documentado – é particularmente grave. As doenças altamente infecciosas devastaram comunidades no passado; o coronavírus pode ser uma ameaça existencial.

Por mais errático que Bolsonaro seja, seu curso atual deve, sem dúvida, algo a seus cálculos políticos. Ataque as restrições agora e, quando a economia avança, ele pode culpar as terríveis decisões tomadas por outros. Ele já acusou os governadores de serem “exterminadores de empregos”. Alguns observadores também suspeitam que ele vê a pandemia como uma maneira de agitar sua base; ele sempre prosperou em confrontos e caos.

No entanto, até os ex-aliados estão finalmente se recusando a agir. Ronaldo Caiado, governador de direita de Goiás, cortou laços com o presidente na semana passada, descrevendo seu comportamento como terrível. O chefe de direita do estado fortemente pró-Bolsonaro de Santa Catarina declarou-se “perplexo” pela posição do presidente. Há relatos de rumores nas forças armadas. Bolsonaro pode não acreditar no distanciamento físico, mas está se mostrando notavelmente bem-sucedido em se isolar.

Fonte: Guardian // Créditos da imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

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