Lojas abandonadas, casas vazias: Crise imobiliária em São Francisco

No início desta década, um quarteirão amado em São Francisco tinha uma taqueria, uma floricultura e uma livraria. O restaurante de Sparky, era um ponto de encontro favorito para trabalhadores noturnos, adolescentes queer e grupos em happy hour, ficava aberto o tempo todo.

Hoje, esse quarteirão da Church Street, tem várias vitrines abandonadas, que costumam ser uma abreviação de cidades decadentes, e não de centros do futuro da tecnologia. Mas todas essas lojas fechadas são emblemáticas da São Francisco atual, onde mesmo em áreas de luxo, o boom econômico da cidade pode parecer surpreendentemente uma crise econômica.

Essa falta de movimento resulta em uma gentrificação local, na qual um afluxo de residentes abastados não significa cafés e lojas de design de interiores vintage, mas apenas locais vazios.

Centro desolado

O cruzamento das ruas Church e Market é onde muitos bairros de São Francisco se encontram – desde o histórico Castro até a nova nobreza no Hayes Valley e o vórtice moderno que é o Mission District.

É um local peculiar, animado, facilmente acessível por transporte público e popular entre jovens criativos de várias áreas. Na última década, complexos de apartamentos se espalharam por toda a área, ganhando centenas, senão milhares, de novos moradores. Mas os negócios na área estão morrendo.

Em 2017, cerca de uma em cada oito vitrines estava vazia, e mais empresas parecem ter se mudado desde então. Os restaurantes foram os primeiros a sair: em 2015, o aluguel subiu repentinamente, o proprietário do se recusou a pagar e o Sparky’s fechou.

Tecnologia da crise

Nossas idéias habituais sobre gentrificação sugerem que as lojas de bairro sejam substituídas por butiques chiques e restaurantes de lanches. Em vez disso, surgiram apenas lojas vazias. Parte devido ao fim dos contratos de longo prazo, parte devido ao aumento repentino dos aluguéis e parte devido ao desaparecimento de diversos pontos de encontro famosos por décadas. A Aardvark Books, uma livraria que funcionou por quase 40 anos, até 2018, é agora uma loja vazia.

Mas todas as razões têm muito a ver com a economia tecnológica que fez de São Francisco uma das cidades mais caras do mundo.

Empresas ganham dinheiro vendendo e criando apartamentos de luxo voltados para trabalhadores da tecnologia, que geralmente possuem alto salário, enquanto o varejo sofre a crise resultante: Espaços grandes, antes baratos, se tornaram caros e insustentáveis mesmo com o influxo de trabalhadores de alta renda.

Um relatório recente descobriu que existem cerca de 38.000 casas vazias em São Francisco – três a cinco vezes o número de moradores de rua da cidade. Foto: Jason Henry

Como resultado, uma espécie de capitalismo sem compromisso tomou posse da cidade. Ao contrário de restaurantes que se tornam ícones de gentrificação a longo prazo, como Marlow & Sons no Brooklyn, agora os cafés e bares chiques que aparecem nesses abrem com a mesma velocidade que fecham. As pessoas fazem reservas para jantar na quarta-feira, apenas para ver o restaurante fechar abruptamente na quinta-feira.

Enquanto isso, a maioria dos residentes nos diversos complexos habitacionais começaram a comprar seus itens pela Amazon Prime e pedir sua comida pelo serviço de entrega Caviar.

Mercado agindo naturalmente?

Alguns podem dizer que tudo isso é simplesmente darwinismo do mercado, mas é interessante que o livre mercado exista apenas em um lado da equação. Desde que a Califórnia aprovou a Proposição 13 em 1978, as taxas de imposto predial para os cidadãos que possuíam propriedades naquela época foram severamente limitadas.

Os proprietários podem pagar as taxas de imposto predial baratos, enquanto alugam esses espaços a valores que aumentaram exponencialmente nos últimos 40 anos. Eles também podem se permitir deixar edifícios vazios.

O que mudou com sucesso foram os negócios de tijolo e argamassa cercados por uma vaga auréola tecnológica. O prédio no cruzamento da Church and Market foi alugado por uma startup chamada Sonder, que subloca apartamentos individuais em curto prazo.

Do outro lado, está a Compass Realty, que se autodenomina “uma empresa de tecnologia que reinventa o espaço”, mas é praticamente uma corretora tradicional – embora seja financiada pelos líderes do Vale do Silício.

Depois, há o One Medical, uma HMO que tem um certificado tecnológico questionável, é apoiado pela Alphabet, empresa controladora do Google, que tem como objetivo desenvolver um app.

Essas são empresas que tentam se alimentar da agitação que envolve todas as coisas relacionadas à tecnologia, mas acabam vivendo de programas de seguros obrigatórios pelo governo federal ou de fundos de capital de risco.

Um desenvolvedor que se mudou e prometeu abrir vários restaurantes ao longo da rua acabou sendo um golpista de Los Angeles. A ultima razão do mercado livre, ao que parece, é ganhar dinheiro a custo de outras pessoas.

E enquanto Sonder, One Medical e Compass podem ser negócios sólidos em comparação, é difícil não olhar para seus escritórios e suspeitar que eles reclamem demais: quem sabe quanto tempo eles ficarão na vizinhança ou quanto tempo eles durarão?

Nossas narrativas padrão de gentrificação, fetichizando ou odiando a semelhança chamativa que produz, tratam essa chama como um sinal do trabalho incansável do capitalismo.

Mas a área em torno do centro sugere o quão tênue esse capitalismo se tornou.

Quer você associe a tecnologia a visões utópicas de elevação social generalizada ou a um cenário infernal distópico e destruidor de sindicatos, ambas as visões têm como premissa a eficácia das transformações provocadas pelos dólares do mercado e a engenhosidade tecnológica.

Mas caminhe por partes de San Francisco hoje e você terá um senso totalmente diferente: não uma eficácia sobrenatural, mas um turbilhão de pânico no capital dos sem-teto.

Fonte: Guardian // Imagem destaque: Elijah Nouvelage/Reuters

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