Vista aérea de uma seção desmatada da Amazônia em Porto Velho, Brasil. Foto: Nacho Doce / Reuters

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) foi demitido em meio a uma controvérsia sobre os dados de satélite que mostram um aumento no desmatamento da Amazônia, que o presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, chamou de “mentiras”.

Ricardo Galvão, que defendeu o instituto e criticou o ataque de Bolsonaro, foi demitido na sexta-feira após uma reunião com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

“A maneira como me expressei em relação ao presidente causou um constrangimento insustentável”, disse Galvão na manhã de sexta-feira, segundo o site da Folha de S. Paulo.

“Demitir o diretor do INPE é apenas um ato de vingança contra alguém que mostrou a verdade”, disse o coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil, Márcio Astrini, em um comunicado.

Criado em 2004, o sistema de satélites Deter disponibiliza dados mensais e diários ao público em um site do governo regularmente atualizado. Seus dados para os últimos meses mostraram um aumento alarmante no desmatamento nos últimos meses: subiu 88% em junho em comparação com o ano anterior. A primeira quinzena de julho foi de 68% em julho de 2018.

Bolsonaro e tem ministros chamaram seu lançamento de irresponsável e uma tentativa de manchar a imagem do Brasil no exterior. No mês passado, ele chamou o INPE de “mentiras” e insinuou que a Galvão estava “a serviço” de um grupo estrangeiro sem fins lucrativos. No dia seguinte, Galvão disse que o presidente se comportou “como se estivesse em um bar” e defendeu os dados do instituto.

Os dados mais precisos sobre o desmatamento na Amazônia brasileira são coletados pelo sistema de satélites Prodes e divulgados anualmente. O sistema de satélite Deter tem uma resolução menor e é usado principalmente para alertas de desmatamento, disse Tasso Azevedo, ex-chefe do serviço florestal do Brasil. Mas nos últimos 12 anos, sempre que os dados anuais da Deter mostraram um aumento do desmatamento, o Prodes confirmou a tendência e calculou uma taxa ainda maior. Os dados do Prodes publicamente disponíveis remontam a 1988.

Azevedo é o coordenador do MapBiomas, uma iniciativa de ONGs, universidades e empresas de tecnologia que monitora mudanças no uso da terra. Ele disse que de janeiro a julho, os números acumulados da Deter mostraram um aumento de 62% no desmatamento em comparação com o mesmo período do ano passado, e que outros três sistemas internacionais de monitoramento por satélite também mostraram um aumento do desmatamento. “Todos têm uma metodologia diferente, então os dados são diferentes, mas todos apontam para um aumento no desmatamento”, disse ele.

Na quinta-feira, Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, criticaram a divulgação de dados como irresponsável e sensacionalista. “Os números foram debatidos, parece-me, com o objetivo de atacar o nome do Brasil e do governo”, disse Bolsonaro.

Em uma apresentação, Salles disse que sua equipe encontrou centenas de áreas de desmatamento incluídas nos números de julho de meses ou anos anteriores. Ele não explicou a metodologia utilizada. O INPE defendeu seus números em um comunicado e disse que não havia recebido acesso prévio ao estudo de Salles.

O governo teme que os dados alarmantes possam prejudicar um importante acordo comercial entre o bloco comercial sul-americano, o Mercosul e a UE. Ambientalistas disseram que o dano já havia sido feito.

“A imagem do Brasil já está irremediavelmente comprometida por essa cruzada contra os fatos”, disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

Fonte: Folha de S. Paulo| Guardian

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