O ministro da Justiça, Sérgio Moro, fala em Manaus, no fim de semana. Fotografia: Michael Dantas / AFP / Getty Images

Moro é acusado de colaborar com promotores

O Brasil tem sido abalado por alegações de que um juiz de destaque colaborou repetidamente com promotores durante investigações de corrupção de alto perfil – incluindo o controverso caso que prendeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Sérgio Moro deu conselhos estratégicos, críticas e dicas aos promotores durante a ampla investigação sobre corrupção conhecida como Operação Lava Jato, que prendeu centenas de executivos, políticos e intermediários.

Os promotores também discutiram estratégias para impedir as tentativas de um jornal de entrevistar Lula durante a campanha eleitoral do ano passado, de acordo com a Intercept, que publicou conversas em celulares que afirmou ter recebido de uma fonte anônima.

Pesquisas de opinião indicaram que Lula provavelmente venceria a eleição presidencial de 2018 até ser preso e sair da disputa. Seu substituto de última hora, Fernando Haddad, foi vencido pelo candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro – que então nomeou Moro como ministro da Justiça.

Lula está preso desde abril de 2018. Ele foi condenado a nove anos de prisão em 2017 por Moro, que decidiu que ele recebeu propinas de uma construtora na forma de um apartamento à beira-mar reformado para ele.

No domingo, o Intercept publicou trechos do que descreveu como um “enorme acervo” de conversas em grupo no aplicativo telefônico criptografado Telegram, junto com áudio, vídeo e outras documentações.

Trechos de conversas entre promotores no aplicativo de telefonia Telegram parecem mostrar Deltan Dallagnol, o promotor da investigação Lava Jato, expressando dúvidas sobre a força do caso contra Lula em setembro de 2016, quatro dias antes de apresentar a acusação.

“É como impedir o outro time de jogar. É como se eles decidissem jogar a bola sozinhos ”, disse Carlos Melo, professor de ciência política da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, o Insper. “Um princípio básico da lei é que aqueles que acusam não julgam”.

Outras mensagens pareciam mostrar que, durante a campanha eleitoral, os promotores tramaram uma decisão de um juiz da Suprema Corte de permitir que o jornal Folha de S. Paulo entrevistasse Lula na prisão, porque isso poderia ajudar as chances eleitorais do Partido dos Trabalhadores.

“O relacionamento do juiz com os promotores é escandaloso”, disse o editor executivo da Intercept Brasil, Leandro Demori. “Isso é ilegal sob a lei brasileira”.

Em uma declaração no domingo à noite, Moro disse que as revelações “não mostraram nenhuma anormalidade” e que “ignoraram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato”.

O ministro também se queixou da “invasão criminosa” dos telefones dos promotores.

Demori se recusou a discutir como o site obteve o material, além de dizer que veio de uma fonte anônima. Ele disse que o arquivo era maior do que o revelado pelo denunciante da NSA, Edward Snowden, ao jornalista Glenn Greenwald, que depois criou o Intercept e co-escreveu os artigos de domingo.

Bolsonaro ainda não comentou, mas seu filho Carlos compartilhou um tweet observando que o marido de Greenwald é o congressista David Miranda, do Partido Socialista e Liberdade de esquerda.

Os promotores disseram em um comunicado que eles foram sujeitos a um “ato criminoso” por um hacker que comprometeu sua segurança com “o objetivo de impedir a continuidade da operação”. “Muitas conversas, sem o devido contexto, podem dar lugar a interpretações erradas”, disseram eles.

Os esquerdistas brasileiros – que há muito argumentam que Lula foi injustamente condenado – disseram que as revelações provaram que estavam certos. “É cada vez mais difícil negar a perseguição judicial de Lula”, disse Jean Paul Prates, senador do Partido dos Trabalhadores em um comunicado.

Em fevereiro deste ano, Lula recebeu uma sentença separada de 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro em uma propriedade rural que os promotores argumentaram que também foi reformada para ele por empresas envolvidas no mesmo esquema de corrupção. Ele nega as acusações e também enfrenta vários outros casos de corrupção.

Geoffrey Robertson, o advogado que lida com o apelo de Lula ao comitê de direitos humanos da ONU, disse que as revelações mostraram que Moro era tendencioso. “Lula deveria ser libertado agora da prisão e Moro e certos policiais processados por impedir a justiça”, disse ele em um comunicado.

Guardian

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