Amazonense Anne Veriato continuará lutando com homens no MMA

Anne Veriato, a amazonense que ganhou destaque internacional ao entrar para a história do MMA quando se tornou a primeira transexual à lutar e vencer um homem em uma competição da modalidade, segue com planos audaciosos para a sua carreira.

A lutadora transexual de 23 anos, que compete pelas equipes MC Comb Jiu-Jitsu e Zenith Manaus, tem apenas duas lutas em sua carreira no MMA.

Em sua luta de estréia, ela venceu Railson Paixão ( Renovação Coari Team / Coari-AM ) na 34ª edição do Mr. Cage, show de MMA realizado na capital amazonense e eleito o maior evento de MMA “não televisionado” do Brasil em 2017 pelo Prêmio Osvaldo Paquetá, “o Oscar do MMA nacional”.

Em seguida, a atleta que disputa na categoria até 52 kgs participou do Pitbull Combat, evento de MMA realizado na cidade de Terra Santa, no estado do Pará, também na região norte do país.
Naquela que foi a sua segunda luta de MMA, ela venceu o guerreiro Alcivan Pereira ( Fight Zone / Oriximiná-PA ).
Já no Jiu-Jitsu, ela coleciona várias lutas.

Em sua vida pessoal, a competidora de MMA realizará um sonho em julho deste ano, quando mudará de sexo.
Já em sua vida esportiva, a amazonense que luta há 14 anos garante que, mesmo com a mudança, continuará lutando com homens, inclusive nos eventos de MMA.

-“Irei fazer os primeiros procedimentos em julho para a mudança de sexo e já estou convicta disso, porque sei que só assim me sentirei bem e completa. Desde criança lutei contra os homens e não me sentiria bem lutando contra mulheres, seria injusto”.-diz a guerreira, para em seguida complementar :

-“Desde criança sou apaixonada por lutas, brincava com meu pai toda vez quando ele chegava do trabalho. Eu também brincava sozinha no quintal de casa. Sempre fui louca por lutas”.-afirmou Anne.

Apesar do apoio dos familiares e dos promotores de MMA, uma controvérsia foi instaurada logo após a primeira luta de MMA da atleta.
Segundo os médicos da Comissão Atlética Brasileira de MMA – entidade responsável por supervisionar o esporte no país – a hormônioterapia a qual Anne se submeteu durante 10 anos ocasiona um desnível muito grande na luta contra os homens.

Segundo os tais médicos – especialistas nesse assunto – os remédios de bloqueio e produção do hormônio masculino ( a testosterona ), usados neste tipo de terapia, desnivelaria Anne em comparação aos outros lutadores nos quesitos força, agressividade, massa muscular e composição óssea, entre outros.

Na época, Samir Nadaf, promotor do Mr. Cage, refutou tais afirmações :
-“Ela nasceu homem e acho justo lutar contra um homem. Se quiser lutar MMA, vai ser contra um homem. Mesmo se ela mudar de sexo, ainda tem a força e a garra masculina”.-comentou o empresário, garantindo que independente de Anne ter passado por tratamento hormonal durante os últimos 10 anos, continua sendo homem.

Também naquela ocasião, Andréa – uma das treinadoras de Anne – rebateu a Comissão Atlética Brasileira de MMA, afirmando que os médicos não são justos, nem plausíveis nas suas considerações.

-“A criticam de lutar contra homens por estar se tornando uma mulher, mas também é provável de que a impeçam de lutar contra mulheres por ter um nível biológico diferente do restante das mulheres. Ela vai parar de lutar por causa disto? Claro que não!”-exclamou a treinadora.

Em meio à tantas opiniões diferentes, a polêmica sobre a participação das atletas ‘trans’ em competições femininas foi parar na assembleia legislativa do estado de São Paulo, onde o projeto de lei nº 346 / 2019 de autoria do deputado estadual Altair Moraes ( PRB-SP ) já foi publicado no Diário Oficial, no último dia 2 de abril.

O projeto de lei estabelece que o sexo biológico é o único critério para a definição de gênero de atletas nas competições esportivas no estado.
Assim sendo, o PL nº 346/2019 veta a participação de pessoas transexuais em equipes do sexo oposto ao de seu nascimento.

Um projeto de lei com idéia semelhante também já foi apresentado no estado do Rio de Janeiro pelo deputado estadual Rodrigo Amorim ( PSL-RJ ).

Na contramão de outras atletas ‘trans’, tais como a brasileira Tifanny Abreu e a australiana Hannah Mouncey, que querem ser aceitas por ligas femininas, Anne Veriato diz que seria injusto lutar com mulheres. Ela apoia tais projetos de lei.

-“Eu apoio e estou totalmente de acordo porque é justo. Todos temos que ter consciência diante a isso”,-enfatiza Anne.

A lutadora lamenta os obstáculos que ainda enfrenta para ser aceita.
-“O que me deixa triste são os limites que as pessoas tentam me impor. Lutei contra homem toda a minha vida e vou continuar assim, independente das críticas que ouço. Posso ser quem eu quiser e vou persistir na minha carreira de lutadora como mulher ‘trans’ no MMA”.-afirmou.

Com experiência internacional em campeonatos de Jiu-Jitsu disputados em Portugal, Anne quer desbravar fronteiras também no MMA e a sua disposição para continuar lutando com homens poderá chamar a atenção dos promotores da modalidades em outros países, além do Brasil.
Algum casca-grossa se habilita à enfrentá-la dentro do ‘cage’ ?

*Texto do colaborador Oriosvaldo Costa. | Escrito em 12/04/2019

Anne Veriato comemora a vitória no Pitbull Combat na cidade de Terra Santa, no estado do Pará. ( Cortesia : Aldisson Almeida Fotógrafo ).

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