Aumentar impostos dos ricos já é ideia popular nos EUA

O extraordinário momento político que os Estados Unidos de Trump vivem atualmente leva ideias antes marginais a ocuparem o centro do debate. Talvez não seja surpreendente que, nos compassos iniciais das superpovoadas primárias democratas que decidirão o rival do heterodoxo presidente em 2020, alguns candidatos falem de aumentar drasticamente os impostos dos ricos.

O chamativo é que essas propostas, condenadas ao escárnio há não muito tempo, agora suscitem um amplo respaldo acadêmico, midiático e popular. Ou que os bilionários discutam em Davos as ideias de política fiscal de uma jovem de 29 anos, a congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez, que há poucos meses servia comida mexicana num pé-sujo de Manhattan.

“Há uma sensação de que os ricos dominam injustamente a sociedade, e a tendência à desigualdade está se pronunciando”, opina William Gale, codiretor do Centro de Política Fiscal. “Os políticos progressistas tentam se distanciar dos interesses dos ricos. Em círculos acadêmicos, o sentimento é ambíguo. Há estudos que apoiam um imposto sobre a riqueza, mas outros acham uma significativa reação fraudadora.”

A senadora Elizabeth Warren propõe um imposto às grandes fortunas, uma taxa que nunca existiu nos EUA. Bernie Sanders, senador independente que disputa a preferência da ala esquerdista do partido, promete um imposto de 77% sobre as heranças dos mais ricos. E Ocasio-Cortez, que não está nas primárias, mas impulsiona uma pauta muito social no Congresso, fala de duplicar a alíquota máxima do imposto de renda, que chegaria a um valor entre 70% e 80%.

O temor de que uma alta tributária desestimule o crescimento é “exagerado”, segundo Gale. “Mas depende da política aplicada, e há maneiras muito ruins de fazer isso”, adverte. “Os indícios apontam que o nível tributário não tem muito impacto no crescimento. Os dados mostram enormes mudanças nos impostos que quase não afetam os indicadores de crescimento. Desde 1960 a 2010, a alíquota máxima caiu em mais de 40 pontos nos EUA, e praticamente não variou na Espanha e na Alemanha. Entretanto, os índices médios de crescimento nos três países foram quase idênticos.”

As pesquisas revelam que três em cada quatro eleitores apoiam a elevação dos impostos sobre os ricos, uma tendência constante nos últimos 25 anos, que hoje abrange inclusive eleitores republicanos. Segundo um levantamento de janeiro do canal conservador Fox News, a maioria dos norte-americanos é partidária de subir as taxas para quem ganha mais de 10 milhões de dólares por ano.

Antes da Grande Recessão, era impensável que alguém iniciasse uma corrida presidencial a sério definindo-se, como Sanders em 2016, como um “socialista democrático”. A desigualdade e a concentração de riqueza levam a questionar certezas de política fiscal que pareciam intocáveis.

Na atualidade, o caráter progressivo do sistema tributário norte-americano é relativo, e ainda mais desde a grande redução de impostos de Trump, que os democratas qualificaram como um presente histórico aos mais ricos. “Entre 1979 e 2015, a renda domiciliar dos 1% mais ricos subiu 233%. Os impostos federais para esse coletivo caíram 2%, e ainda mais com a redução fiscal de Trump”, diz Gale.

Mas Trump deu aos democratas a oportunidade de pensar grande. Um presidente que detonou muitos dogmas republicanos deixa os democratas tentados a fazer o mesmo. Reabriu os acordos mais sólidos, desatou guerras comerciais, de modo que os democratas não precisam se preocupar em deixar o mundo empresarial nervoso: o presidente já faz isso.

Fonte: El País

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