Colunista - Professor Alan Bica

Patrimônio Histórico: O que ele Representa?

Passadas duas semanas do fatídico dia, em que Museu Nacional da Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro sofreu com um incêndio de grandes proporções, ficam muitas perguntas, muitas dúvidas e muitas infelizes certezas. A primeira dessas confirmações é que, o patrimônio histórico tem pouco valor para a população brasileira. Este fato tem origem na dificuldade que temos para olhar para o passado e enfrentarmos tudo o que salta aos olhos, seja de bom ou ruim. Expressões como “quem vive de passado é museu”, “velho é o teu passado”, demonstram claramente a ideia central que permeia a cabeça da maioria das pessoas cotidianamente: não devemos olhar para passado. Devemos somente pensar no hoje, no agora. “Que tempo eu tenho para pensar no passado, quando as contas do mês estão batendo a minha porta”, é frase corrente no discurso de muitas pessoas, que acreditam em muitas dessas ideias. Tá, mas então elas não devem pensar no hoje? No Agora? Devem somente estar sempre com seus olhos voltados para os longínquos momentos da história humana?

Nenhum historiador, nem o mais dedicado antropólogo ou museólogo ou qualquer outro cientista que tenha que fazer este processo contínuo de “olhar para trás”, fica o tempo inteiro com seus olhos nesta direção. Inclusive, antes de qualquer coisa, ele não está lá, mas aqui, no momento atual, convivendo com os mesmos problemas cotidianos que qualquer outra pessoa. Todos eles têm contas, problemas pessoais e familiares, enfrentamentos diários e cotidianos que precisam superar, da mesma forma que qualquer outro brasileiro. Mas uma diferença existe: ele entende a importância de olhar para lá, para o derradeiro, o antigo, o primitivo.

Este compreende que, se não realizar este movimento, as condições para a superação das problemáticas coletivas enfrentadas atualmente, poderão ficar seriamente comprometidas. Por isso a dedicação contínua dentro de arquivos, museus, sítios arqueológicos, laboratórios, etc. Por causa disso que, em meio à queima e ao incêndio, viam-se funcionários do museu nacional, pesquisadores, cientistas, entrando e tentando salvar alguma coisa. Por isso, o choro e a tristeza de muitos frente a todas aquelas perdas. Eles estavam vendo todo o seu trabalho, toda a sua vida profissional, tudo para o que dedicaram horas a fio, sendo perdido nas chamas. Horas perdidas e dadas, na busca de tentar encontrar e produzir conhecimento para ajudar as mesmas pessoas que, desdém destes no dia a dia.

Desdém que se reflete na própria atuação política da população e de seus representantes eleitos. Pautas como saúde, segurança e educação são comuns em panfletos e discursos partidários (não que não devam ser longe disso). Mas, pouco se falam em cultura, história e patrimônio Inclusive, nas discussões referentes à nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para o ensino médio, o governo estabelece como da base comum escolar, somente as disciplinas de português e matemática. História? Sociologia? Filosofia? Somente se as redes escolherem. Para o governo, português e matemática importam e o resto não. Como a maioria da população reagiu a esta nova BNCC? Com o mesmo desdém.

Como iremos constituir uma sociedade diferente, mais igualitária, com mais distribuição de renda e serviços e direitos sociais garantidos, se não conseguimos analisar e olhar para o patrimônio e a história deste país? Quanto mais de patrimônio teremos que perder para entender a importância do mesmo para o nosso futuro?

Futuro de quem? De todos os trabalhadores e trabalhadoras, desempregados, pequenos produtores, estudantes, cientistas, etc., que são aqueles que constituem a riqueza deste nossa civilização. A todos eles importa a preservação do patrimônio porque, somente a partir dele, poderemos perceber o que devemos manter e o que devemos alterar no hoje, no agora, para o futuro. Existem aqueles que não querem estas mudanças e vão lutar para que permaneçamos na ignorância, no imediatismo, desvalorizando o passado para que este não possa ser visto e revisto. Este governo é um exemplo e faz parte deste grupo. E até o momento, neste caso em particular, grande parte da população compactua com eles. Que possamos mudar este cenário.

 

Por:  Professor Alan Nuncas Bica

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